terça-feira, junho 30, 2009

quando se é novo é para toda a vida...

de antónio lobo antunes encontrado na versão revista e reencontrado aqui


Não sei a idade dele. Tem o cabelo branco, o bigode branco, rugas em parênteses sucessivos dos lados da boca, um dos olhos morto, sepultado no caixão das pálpebras, as mãos tremem um bocadinho à procura das coisas e dá-me a impressão que as coisas o ajudam aproximando-se, misericordiosas

- Agora podes

da dificuldade dos dedos. Quando estão viradas para esse lado as coisas são simpáticas, quando não estão escapam-se da gente, rolam, escorregam, caem no soalho, partem-se: é preciso tratá-las com bons modos ou apanhá-las distraídas, de costas para a gente, saltar-lhes para cima

- Já cá cantas

e as coisas, que remédio, aceitam. Então convém segurá-las pelo pescoço, de preferência com os dentes, e esmagar-lhes as vértebras num movimento rápido, como os leopardos fazem aos antílopes. Esmagar-lhes as vértebras talvez não seja boa ideia porque as coisas amolecem e deixam de servir. O melhor é seduzi-las devagarinho, sorrir-lhes, soprar piropos, adulá-las, pedir

- Anda cá copo, anda cá garfo

e pegar-lhes numa firmeza doce, a murmurar ternuras. Ao poisá-las, logo que vier a pergunta aflita

- Deixas-me assim?

responder

- Eu já volto

ou

- Depois telefono

e se as coisas estranharem

- Nem sequer tens o meu telemóvel

fingir que se toma nota no nosso, visto que vamos precisar delas de novo e convém manter uma relação de pré-namoro implícita. Quantas jarras não se quebram por falta de ternura, quantas tesouras desaparecem das gavetas, desiludidas connosco, quantas lâmpadas não se fundem na sequência de falta de carinho? E quando as casas deixam de gostar de nós e nos começam a enxotar para a rua? Quando as camisas perdem um botão de punho de propósito, sentindo-se abandonadas? E as nódoas que arranjam para se vingar da gente? A empregada lavou-as, engomou-as e elas

pumba

uma nódoa ressentida. Quem quiser ter paz não pode provocar as coisas, entristecê-las, tirar-lhes a esperança de um futuro em comum, senão a vida torna-se impossível: um pneu em baixo, a chave que a fechadura recusa, a caneta que perde a tinta a meio de uma frase, os iogurtes que levaram sumiço do frigorífico e ainda ontem lá estavam. Aproveitaram o outono para emigrar, como os patos bravos e as turistas suecas, e corre-se o risco de, ao entrar em casa, quase nem um móvel e um alicate, na poltrona, a magoar-nos a nádega. Apanhamos o alicate, exigimos explicações

- Como é que vieste aqui parar?

e explicação alguma, uma mudez feroz, ultrajada. Voltando ao início não sei a idade dele. Tem o cabelo branco

(não se esqueçam das coisas)

o bigode branco

(tive de mudar de esferográfica, aí têm a prova do que disse)

rugas em parênteses sucessivos dos lados da boca, um dos olhos morto, sepultado no caixão das pálpebras, as mãos tremem um bocadinho, ao expirar o bigode horizontal, ao inspirar mete-se-lhe na boca, a perna esquerda, mais complicada que a direita, de joelho acima ou abaixo do outro, arrasta-se num ímpeto tracejado

(o professor do liceu para mim

- A tracejado, burro, não a cheio

diabético e cruel, cheirando a rosas podres, e eu com medo que a tinta da china do tira-linhas pingasse

- Vê lá se pingas isso tudo, palerma)

o fato conheceu melhores dias, o nó da gravata desaparece num dos lados do colarinho

(oxalá esta esferográfica aguente, não fui amável com ela)

e, no entanto, não sei quê nele com dezoito anos, o sorriso, um meneio, uma aura de inocência, um apetite de caramelos e comboios de lata que não sou capaz de definir e lhe flutua em torno. Espera comigo na loja do cidadão a fitar tudo num espanto de primeira vez, encantado, deve apaixonar-se por lagartixas, bolos de creme, anéis de feira, palhaços, ser uma desgraça no tracejado, como eu. Há muito tempo que não via tanta infância em ninguém. Tira um relógio da algibeira

(um relógio de brinquedo, aposto, de ponteiros impressos no mostrador)

verifica as suas dez horas e dez horas perpétuas, volta a guardá-lo, satisfeito. Quantas vezes não desenhei relógios no pulso, com um pincel? Enquanto ele guarda o relógio aproveito para espreitar o meu e, a gouache encarnado, dez horas também, está certo. O único problema dos relógios desenhados é que se desbotam num instante, é preciso reforçar as dez horas dia sim dia não. Disse-lhe a exibir os meu ponteiros

- Nenhum de nós se atrasa

e ele, do fundo do bigode, a piscar-me o olhinho que sobra

- Sempre fomos pontuais não é?

isto afirmado não com a boca, com o único dente

(o que aconteceu às esferográficas que pifam umas atrás das outras?)

por sinal escuro, por sinal grande, se tivesse à mão uma lagartixa dava-lha, um comboio de lata, caramelos, encontram-se compinchas por todo o lado, quando o seu relógio de brinquedo e o meu relógio feito a pincel marcarem dez e meia

(dez e meia não, as aulas acabam ao meio-dia e meia)

fazemos uma corrida a ver quem chega mais depressa ao coreto do largo, perto do homem que vende castanhas no inverno e gelados no verão, podemos fumar um cigarro às escondidas, podemos tentar apanhar um pombo

(nunca consegui apanhar nenhum)

podemos comparar a profissão dos nossos pais e perceber qual é o mais importante, podemos fazer braço de ferro

(como sou canhoto com a esquerda ganho sempre)

podemos esquecer-nos um do outro que não faz mal porque arranjámos um amigo, vou-me à caixa do algodão da minha mãe, tiro um bocado, enrolo-o, aplico-o contra o intervalo entre o nariz e a boca e fico com um bigode muito maior que o dele.

o pequeno marinheiro solitário...

dirigi-me a ele porque estava sózinho, sentado no degrau e triste porque o jantar era peixe e ele não gostava de peixe, de peixe nenhum, desejava que o jantar fosse pizza ou hambúrguer com sumo e gelado à sobremesa, mas era peixe e ele não gostava de peixe. sobre esse assunto não posso fazer nada, mas talvez este seja um peixe especial que tu vás gostar, ainda não viste como foi cozinhado, vamos esperar para ver é que sabes eu também não gosto de peixe, no entanto estou certa que este vai ser diferente e me vá saber bem. perguntei-lhe porque estava sózinho disse-me que para além de não gostar de peixe também não gostava da sua cor, é que os outros gozam, como é possivel não gostares da tua cor és castanho chocolate, eu gostava de ser da tua cor, queres trocar? encostamos os braços um ao outro, ele disse-me não dá, não dá para trocar e lá foi brincar. ficámos na mesma mesa e, tal como eu que não gosto de peixe, comeu tudo até ao fim. depois foi no passeio nocturno em que ia-mos enfrentar os lobos e os ursos que vivem na serra de sintra agarrou-me a mão, estava com muito medo, o seu coração batia forte e não parava de perguntar como eram os ursos, se era seguro ir, se eles comiam pessoas respondi a tudo que sim e o medo crescia dentro dele e hesitava em avançar mas continuava, como se sentisse que o medo a qualquer momento podia ficar insuportável comecei a tranquilizá-lo e a dizer que provavelmente àquela hora os ursos estariam a dormir, por isso bastava que não fizesse barulho e os ursos nem dariam pela nossa presença, ele persistia mas os outros, os barulho dos outros pode acordar os ursos, não te preocupes com isso. depois de um silêncio...
Ele - de que cor são os ursos?
eu -castanhos
ele - e as orelhas dos ursos?
eu - castanhas
ele - e só há ursos dessa cor?
eu - não também há brancos mas esses não vivem aqui na serra de sintra por isso com esses não tens que te preocupar... (silêncio) olha se os ursos são castanhos se calhar não comem pessoas da mesma cor que eles
o meu coração sorriu e confirmei a sua expectativa
eu - olha, isso é verdade já viste a tua sorte eu também tenho um bocadinho de sorte que sou um bocadinho castanha e pode ser que por ser tua amiga eles também não me comam a mim...
...
já no páteo da casa ouviam-se barulhos no jardim e só o meu pequeno amigo lhes dava atenção 3 adultos e ele
insistiu que vinham barulhos do jardim, que deviam ser ursos ou lobos, como que não lhe ligassemos
disse em jeito de pensamento audivél avançando para o jardim
eu sou castanho chocolate, os ursos não comem pessoas da mesma cor que eles, vou ver!
apanhou o susto da vida porque do jardim veio em direcção a ele o V. que lhe pegou ao colo
ao grito seguiu-se uma sonora gragalhada
depois de toda esta emoção foi hora de dormir
(...)
o pequeno marinheiro solitário recorria à minha companhia até que uma das meninas com quem partilhei o quarto me veio perguntar tu és prima dele, respondi que sim, ele disse-me então conheces-me desde pequenino, claro disse-lhe eu... mais tarde que não é fácil mentir a uma criança, a mesma menina veio dizer-me olha se tu e ele são primos, porque é que não sao da mesma cor? tive que lhe dizer que havia uma razão simples o nosso avô era da mesma cor mas os meus pais e os pais dele não era daí eu ser mais pálida que ele. não voltou a fazer perguntas, assim sendo parece que a consegui convencer.
(...)
intrigava-me o facto do menino estar sempre a brincar sózinho, observava-o de longe, vi-o arrastar um enorme tronco para cima de um monte de folhas e depois sentou-se no tronco e lá estava ele sózinho, no tronco, sentado... aproximei-me dele e como já não pudesse suportar a curiosidade perguntei-lhe o que é que estava a fazer em cima do tronco. J - estou a brincar aos barcos! E - então tu és um marinheiro solitário... J - o que é isso? E - é um senhor que anda no mar num barco sózinho! J - e os tubarões não o comem? E - não os tubarões normalmente são amigos desses senhores, já que eles não têm companhia e não querem fazer mal aos tubarões!

infelizmente todas estas situações não foram inventadas por mim,
não tenho criatividade para tal...
mas é tão bom quando a realidade supera a ficção

estórias da colónia

é simples aos 3 anos dar lições de humildade... mesmo sem o perceber, especialmente porque não se percebe.
depois do jantar, um jantar com visitas fomos descobrir o espaço envolvente, conversar trocar afectos. estávamos no páteo a comer pinhões o processo era encontrá-los, reunir, parti-los e come-los. o A era o mais pequeno, estava a ambientar-se, logo os restantes tinham enorme cuidado com ele, perguntei-lhe se queria fazer uma cambalhota, achou que não era altura, imagino que se tenha perguntado como é que isso podia ser feito ali naquele chão de terra batida, outro mais ousado disse que gostaria de experimentar e exemplifiquei, mais seguro A. venceu o receio e aventurou-se, depois começou o processo da procura de pinhões e lá fomos umas 6 crianças (entre 3 e 10 anos) e eu, enquanto isso uma delas perguntou quem é este novo menino, respondi "é filho do Dr. X e da Drª Y", A. ouviu a minha resposta e quando me calei oulhou-me e disse rebatendo a minha apresentação "sou filho do meu pai e da minha mãe", sorri e encaixei!

mais e mais obrigada

pelo tanto que aprendi na casa da praia, recordo a importância do trabalho em equipa daquelas mesmo boas que quando não acerta reinventa soluções, da atitude terapêutica nos diferentes contextos, da importância das regras e limites, do impacto que tem na na criança/adolescente conseguir traduzir os sentimentos em palavras que possam ser entendidas e acolhidas palavras que tenham significado para eles, palavras de afecto, da importância de reconhecer o código escrito, da importância de somar, da dificuldade de subtrair ou dividir dos que já pouco têm de seu, do papel da imaginação e do mundo mágico de esperança cheio de lobos, ursos, tubarões e papões que temos que ter coragem de enfrentar. estes 3 dias de colónia ajudaram-me a consolidar, outra e outra vez esses tesouros de conhecimento. um grande bem haja ao sonho do Senhor da cenouras por ter perpetuado as suas descobertas cientificas em livros, por ter deixado marca em quem com ele trabalhou, por ter perpetuado o que foi aprendendo na sua curta passagem pela vida em quem teve a sorte de privar com ele, por ter sido mestre mesmo que esse não fosse objectivo. por continuar a existir bem vivo, no ambiente da casa e nos corações da equipa, por ter ousado sonhar e não se ter coibido de concretizar o sonho sem medo que depois de consumado perdesse o encanto.
obrigada por me terem dado a oportunidade de voltar e reparar que se o céu estiver limpo do alpendre de consegue ver o mar é que às vezes estamos tão absorvidos com o trabalho que o que está a mais de um palmo do nosso nariz se perde e pode ser tão bonito...
ao joão dos santos e à casa da praia um grande bem haja por existirem hoje e sempre!
deixem as crianças sonhar

domingo, junho 28, 2009

as coisas que eu não quero...

um dia ao contar a alguém que tinha acabado de conhecer sobre este blog foi-me perguntado sobre o que é que escrevia. respondi coisas e talvez por defeito profissional fui vaga (é que ganhei o vicio de nunca responder a uma pergunta sem entender o porquê de ela me estar a ser feita). era giro que escrevesses sobre as coisas que tu não queres. volvido todo este tempo agarro essa sugestão neste post, ajustando a minha linha editorial à sugestão de tempos idos, porque a letra desta canção sintetiza o meu maior receio chegar a uma qualquer altura de vida e perceber que não fiz o suficiente para que o lamento aqui expresso seja por mim sentido.
a minha luta mais constante tem sido pertencer ao mundo dos adultos e ter tempo para não esquecer tudo o que desde sempre dá significado ao meu viver, observar o que me rodeia, dar importância às pequenas coisas, assistir ao nascer e ao por-do-sol, surpreender-me a cada momento com as novidades que sempre lá estiveram mas às quais nunca tinha dado atenção, continuar a absorver o mundo "com olhos de beatriz, de guigas ou de joão" surpreendendo-me permanentemente...
assim a coisa que eu não quero mesmo é chegar ao fim da vida e ter perdido algures no caminho o brilho no olhar, o sorriso e a vontade de aprender mais e mais com todas as pessoas que vou tendo oportunidade de conhecer...
é fácil ser feliz, menos quando é difícil!


quarta-feira, junho 24, 2009

hoje amanhã e depois...

colónia da casa da praia porque recordar é viver... e há memórias que são para reavivar sempre que nos seja dada essa oportunidade!

quinta-feira, junho 04, 2009

em jeito de balanço...

este ano foi bom... falhei umas quantas vezes mas acertei muitas mais... fui PJ, alma gémea, teresinha e térêsaaa... surpreenderam-me muitas vezes, por confiar! mesmo quando nada o faria prever e vi-os crescer emocionalmente, acreditaram neles, cada vez mais, nas suas potencialidades e mesmo os que não cumpriram o objectivo gostaram de andar na(pela) escola... tiveram momentos felizes, cooperaram, cumpriram objectivos intermédios, empenharam-se, esforçaram-se, por ser mais e melhor nas coisas boas... disse não, zanguei-me muitas vezes, disse coisas bem duras, verti algumas lágrimas... é qui à professora tem olho mole! mas depois de tudo ficam os sorrisos, os beijinhos, os mimos, a emoção dos bons momentos, os abraços, os sucessos e o desejo forte de um futuro MARAVILHOSO!

um grande bem haja aos putos e um ainda maior aos professores,
vocês são maravilhosos!!!

a coisa mai linda da tia...






... é esta belezoca!!!


é muito parecida comigo, sabe apontar muito bem, ri muito, gosta de dançar,
tem dois dentes e baba-se!!!
que mais posso eu querer de uma sobrinha?!?!

ontem na ópera, hoje em monsaraz, amanhã em nova york!!!

dom giovanni, amei, dormir a correr, abraços às 7 da manhã, acordar o dorminhoco, partir em direcção ao alentejo, arrisquei o conhecimento do inferno, mas imperava a agitação e fiquei na 3ª pagina, fui mudando o lugar, tentando tranquilizar o entusiasmo, depois foram os cromeleques e os menires e monsaraz à vista, foram demonstrando os saberes, da escola e da vida e foi bom ouvi-los! vê-los maravilharem-se com as paisagens alentejanas, observá-los a brincar todos juntos e connosco, a fazer de conta. o almoço foi tranquilo. a emoção de ser certificado e ligar aos pais a dar as boas novas. depois a pedra dos namorados, eu caso no ano que vem e vou ter dois anos repletos de festas dos casamentos deles ;)
agora vou fazer a mala até ao meu regresso!!!