quarta-feira, dezembro 10, 2008

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só corpo, desligado de tudo, perdido, de alma aprisionada bem fundo, lá dentro, um bocadinho depois de onde se pode alcançar.
corpo aliciante, definido, quente e suave com alma escorregadia que foge e se esconde quando parece querer abrir-se farta da distância que se impõe, porque só corpo.
olhar triste, sorriso doce, atento, envolvente mas só corpo.
corpo quente, alma anestesiada, a navegar numa outra dimensão que limita o encontro, para lá do prazer.
outro corpo que nunca aprendeu a ser só corpo, por incapacidade de se desligar do todo, de se compartimentar, para usar só o corpo.
corpo incapacitado de jogar este jogo que apetece e não se esgota assim, porque sente que as regras amputam o mais intimo de si.
corpo que não consegue fingir ser só corpo porque a alma o impede e contra isso não quer lutar sob o risco de acordar e deixar de se conhecer.
só corpo(s) de delito, de prazer, de segredo cujo o encontro não se deu, num tempo que se perdeu...


1 comentário:

Sónia disse...

Linda,
Não poderia estar mais certo o meu David Mourão-Ferreira quando, em "Presídio", escreveu: "Nem todo o corpo é carne...Não, nem todo (...) É também água, terra, vento, fogo...".

Beijos