quinta-feira, junho 03, 2010

reflexões...

há uns anos passaram-me um papel a dizer "és psicóloga de crianças e jovens" estudei 5 anos e no final deram-me esse papel... fui-me construindo a pulso, com dificuldade, pensando em desistir, "será que é mesmo isto que quero, posso sempre ir trabalhar para um banco, atender telefones, vender roupa, ganho o mesmo e não tenho ninguém a virar-se a mim", pondo em causa o meu trabalho, pondo em causa o que me ensinaram! que das cadeiras confortáveis da faculdade para o mundo real a distância é enorme, fiz psicoterapia durante o curso, depois fui arranjando trabalho e desunhei-me para estar à altura de todos os que me foram propostos, gastava quase tudo o que ganhava em supervisão, (benditos sejam os meus pais), trabalhei em muitos sítios porque não se vive do ar e não ia viver às custas dos meus pais, se acabei o curso agora é comigo, ainda que soubesse que se precisasse tinha uma almofada.
do curso retenho alguns ensinamentos deste ou daquele professor, o segredo para uma terapia funcionar é conseguir estabelecer com o cliente uma relação de confiança, o cliente só muda se lhe fizer sentido, sobre a mudança cada pessoa tem o seu tempo e é no seu tempo que vai mudar e não no tempo do psicólogo, deixe que os clientes lhe levem tudo, mas nunca deixe que lhe levem o sorriso (esta é a parte mais difícil para mim), é no psicologo que os clientes vão"despejar" todos os elementos beta e tu tens que ser o tritutador e através de k deves devolver elementos alfa (acho que é isto o bion sempre foi um senhor que me custou a entrar) tudo isto é muito bonito na teoria, mas na prática saí-nos do pelo, principalmente se insistirmos em procurar o nosso emprego de sonho. é que o meu emprego de sonho é trabalhar com crianças e adolescentes de meio sócio económico desfavorecido e fazê-los acreditar que se formos à escola, conseguimos arranjar um bom emprego e se trabalharmos conseguimos ter uma vida e uma família feliz, saudável e digna. conseguimos ter dinheiro para comer, para comprar roupa, para passear, para sustentar uma família e se trabalharmos ainda mais um bocadinho conseguimos pagar uma casa, pagar um carro, que a vida é justa e não interessa se nascemos no cacém, em évora, em cascais ou em qualquer outro ponto do mundo temos iguais oportunidades, basta trabalharmos, mesmo se por alguma razão estranha aos 10 anos ainda não soubéssemos ler fluentemente, ou aos 15 escrevêssemos bifica quando queríamos nomear o nosso clube do coração. fazê-los acreditar, no que eu acredito, que todos somos iguais em direitos e em deveres...
ainda que nos vários sítios onde tive que me deslocar por inerência à função ouvisse coisas como:
"diga-me ele é preto e tem 1.80, é que se assim for resolve-me uma série de questões!" ao que respondi "ali na escola pretos com 1.80 são quase todos, por aí não vai lá"
"a doutora é do benfica esse é o clube dos pobres e dos pretos!" ao que respondi "mas sabe eu sou do cacém (de coração), ainda que por algum acaso estranho tenha nascido em évora e nunca tenha vivido lá!"
"eles levam para ver se endireitam!" ao que respondi "se fosse por levar porrada eles andavam aí direitinhos que nem um fuso, porrada levaram eles muita quando eram bem pequeninos e no dia em que me provar a sua teoria, que houver um estudo escrito, eu serei a primeira a dar-lhes porrada, até lá prefiro conversar com eles"
"estou com muita pena de um, está para ali a chorar, está muito nervoso, disse-me que a mãe morreu o ano passado e tem um problema no coração, sabe eles às vezes dizem que nós..." interrompi "esse que está a falar é como se fosse meu filho e ele estava a dizer a verdade, quanto ao resto não diga mais nada que eu sei que aqui lhes batem e batem mesmo" tinha tido a ousadia de dizer enquanto estava na porta da escola depois do almoço aos senhores policias enquanto estavam a efectuar uma detenção "então isto agora é assim, está aqui um gajo na porta da escola à espera das aulas e vocês chegam e levam um gajo" (eu não vi, foi-me contado pelo vice presidente da escola que assistiu a tudo), foi detido também, não cheguei a saber se por desrespeito à autoridade se por tentativa de impedir o trabalho dos agentes.
quando saí da esquadra devidamente acompanhada pelo agente da escola segura que foi ter comigo quando soube para onde tinha ido, perguntar se precisava de alguma ajuda, tive que me zangar com eles, porque fizeram mal e responderam e explicar que os senhores de farda só estavam a fazer o seu trabalho. explicar-lhe que temos que respeitar a farda porque é o símbolo do estado português e se estamos em portugal, quer tenhamos nascido cá ou noutro do mundo, somos portugueses, ainda que os documentos possam dizer outra coisa qualquer. mais que a farda temos que respeitar os homens e as mulheres que a usam que também têm família e são pessoas para além da profissão... disse-lhe também que há bons e maus profissionais em todas as áreas e que não é por um se comportar como um animal, que todos os outros são iguais! levaram nas orelhas mesmo a sério e pelo que aprendi, às vezes, isto doí mais do que levar com fios eléctricos ou bastões (a isto eles estão habituados). outra coisa que lhes doía eram as lágrimas que volta e meia me rolavam cara abaixo, gordas, soltas e tranquilas, simplesmente caiam, nos momentos de alegria (quando apresentaram o musical, quando chegaram à actividade em que eu estava a trabalhar e os recebi com o meu maior sorriso e com tigeladas, quando ouvi a letra que tinha "encomendado" ao meu "filho" sobre a sua mãe de verdade) e nos momentos de tristeza (por exemplo quando tive que lhes dizer que tinha arranjado outro emprego) a isto eles não estão habituados. rolaram a cada questionamento, mas despediram-na?, mandaram-na embora?, o pief sem si não vai ser a mesma coisa e eu retorqui sempre com a tranquilidade que me é intrínseca, vou porque me candidatei a um emprego em que não fico 3 meses sem contrato, porque já não tenho idade para ficar desempregada no verão, porque enquanto cá estive não ganhei o euromilhões, para ter dinheiro para poder ficar a trabalhar aqui com vocês, de quem gosto muito! e eles aceitaram a minha resposta e as lágrimas continuavam a cair, porque esta era a resposta que a mim não fazia sentido! sentia que estava a fazer um mau trabalho, não!, sentia que não pertencia ali, não! sentia-me mal com a pessoas da escola, não!, sentia-me que não fazia ali falta, não!, sentia simplesmente que nesta altura da vida já merecia alguma estabilidade. eles sabiam que a professora/PJ tinha olho mole, mas custava-lhes ver a moleza do olho da professora...
só a um consegui dizer sem chorar que ia mudar de emprego, foi o último com quem falei, ele do alto dos seus 16 anos disse-me "vai-se embora, mas vai vir cá para nos visitar e não vai ser só uma vez por mês pois não? então pode ir" e sorriu...
sempre que lá vou (e tenho ido mais ou menos uma vez por semana), sou recebida com sorrisos, beijinhos (até porque mesmo que eles não queiram dar eu obrigo), por todas (estou a exagerar) as pessoas da escola, tal como acontecia quando lá trabalhava todos os dias.
há 2 dias um miúdo (já adulto) que não era meu, disse-me a meio da manhã "nunca mais a vi, o que é que aconteceu, muito trabalho! disse-lhe "eu mudei de emprego, estou a trabalhar noutro sítio" e sucintamente expliquei-lhe porquê? "mas em Setembro volta? estes miúdos precisam tanto de si!"
antes da hora de almoço e depois de me ter chateado com eles a sério, mas desta vez em voz baixa porque estávamos na rua, eles afastaram-se de mim uns zangados e outros
sentidos pelo raspanete, disseram obrigada enquanto se afastavam, continuei a observá-los enquanto se afastavam, olharam para trás e disseram-me com alguma preocupação "desta vez não vai chorar, pois não?" (desta vez não chorei).

em resposta a uma sms que recebi no avançar do dia, mandei isto:

"um dia tu vais perceber que quando me zango contigo é porque gosto muito de ti e não quero que te metas em confusões, chegam as coisas menos boas porque já passaste!"

cada um deles sabe isto no seu intimo, (mesmo aqueles a quem não tive oportunidade de dizer individualmente, ou porque não foi preciso ou porque não quiseram ouvir), só quis mesmo reforçar a ideia :)

1 comentário:

nanabrites disse...

pois é... se houvesse muitas té neste mundo não fariam as coisas muito mais sentido?
o meu lado de criança tb precisa da tua orientação às vezes. tou crescidinha, claro mas...
quando se leva alguém a pensar...
acto penoso este...
que nos faz zangar com quem nos obriga a fazê-lo... por breve momentos...